A mensagem e o mensageiro

O que pode estar em um homem até que o mistério se revele para ele? Entre cães e gatos do mato, um pequeno gesto de despedida veio até mim ao tempo de terminar as transduções dos relatos da trajetória de Babandjin ao ritmo de meu coração.  Ele atravessou pelo asfalto pois a prefeitura aliou-se à construção civil derrubando as árvores condutoras até o muro. Cada dia com Babandjin foi como o dia anterior à saudade, portanto, hoje não foi uma surpresa para mim.  A travessia havia se completado.

Aurora, em minhas memórias, apontava para o poente; meu espírito não conhecia a correnteza, mas na medida em que o dia correu, deixei-me levar por ela ao prazer dos ventos, visitando-a em lembranças das mais antigas: perto do mar da Galiléia; às mais recentes: na feira portuária do Mar do Norte, até ser levado às lembranças da alma: um menino brincando na primeira escola, correndo pelo pátio de braços abertos voando em seus livres pensamentos. Apaixonado.

The message and the messenger

Nothing can be in a man among the bush’s dogs and cats until the mystery is revealed to him. As I finished transcribing the stories of Babandjin’s trajectory to the rhythm of my heart, a small farewell gesture came to me. Despite the city council allying itself with construction by cutting down the trees leading up to the wall, he walked across the asphalt. Each day with Babandjin was like the day before longing, so today was no surprise to me: the crossing had been completed.

Aurora, in my memories, pointed towards the sunset; my spirit didn’t know the current, but as the day went on, I let myself be carried away by it at the pleasure of the winds, visiting it in memories from the oldest: near the Sea of Galilee; to the most recent: at the North Sea port fair, until I was carried away to the memories of the soul: a boy playing at his first school, running around the playground with open arms flying in his free thoughts. In love.

Por razões da técnica, mudei o tom infantil original para não dissonar com o restante do texto:

(Excertos do diário):

“Hoje foi o primeiro dia em que eu vi seu rosto em Maria. Eu a reconheço mesmo sem a máscara da princesa. Passei feliz a mais longa das tardes, correndo pelo pátio até a hora da sirene tocar. Mesmo querendo parar, algo em meu coração fez minhas pernas correr. ”

                                         ***

Encontrei em meu espírito o significado do punhal da madeira da árvore primeira cumplice de jornada. Lembrei-me de tê-lo entalhado no cabo ao término das histórias primeiras, pois a letra e o verbo ainda eram dissociados. Lembrei-me de tantas outras depois: da figueira, do carvalho, até chegar ao abricó, era após era.

Ontem, a chama sobre minha cabeça me arrastou para fora do hostel a procurar por você. Naquele dia, visitei locais similares das histórias no istmo que abriga o morro, o hostel, e a areia da praia, lá encontrei um amigo sentado na beira da praia contemplando seu velho barco abandonado encalhado na areia.

For technical reasons, I’ve changed the original childish tone so as not to clash with the rest of the text:

(Excerpts from the diary):

“Today was the first day I saw your face in Maria. I recognize her even without the princess mask. I spent the longest afternoons happily running around the playground until the teacher caught up with me. Then, in class, until the siren went off. Even though I wanted to stop, something in my heart made my legs run.”

                                              ***

In my mind’s eye, I found the meaning of the wooden dagger from the tree that was my first accomplice on the journey. I remember having carved it into the handle at the end of the first stories because the letter and the verb were still separate. I remembered so many others afterward: the apple tree, the fig tree, the oak tree, until I reached the apricot tree, era after era.

Yesterday, the flame above my head dragged me out of the hostel to look for you. That day, I visited similar places from the stories on the isthmus that houses the hill, the hostel, and the sandy beach, where I found a friend sitting on the edge of the beach contemplating his old abandoned boat, stranded on the sand.

Ao sentar-me ao seu lado, lembrei-me de como as mensagens extravasam os portais do tempo. Entendi meu mensageiro ser outro, embora o mesmo de antigos relatos. Invocá-lo-ei pelo mesmo nome de outrora:

— Gabriel, o que fazes? — Indaguei.

— Eu e este velho barco temos uma história juntos, ele lembra meu pai. — Ele me respondeu sem tirar os olhos do vazio.

Depois de algum tempo divagando, aterrissei minha mente bem ao lado do antigo barco. Havia outro ao mesmo feitio, porém novo.  A visão da parábola do tempo expeliu-me outra indagação:

— Barco novo!?

— Pois é. — Depois de algum tempo trocando as madeiras podres, o lastro apodreceu. Daí não tem mais jeito.

Num momento, quando milhares de questões aterrissam na mente. Lembrei-me de ter escrito uma introdução: a verdade jaz no movimento, não no observador.

Sitting beside him, I remembered how messages pass through time portals. I realized that my messenger was another one, albeit the same one from the old stories. I will call him by the same name as before:

— Gabriel, what are you doing? – I asked.

— This old boat and I have a history together; it reminds me of my father. — He answered me without taking his eyes off the emptiness.

After some rambling, my mind landed right next to the old boat. There was another one of the same shape, but new.  The sight of the parable of time prompted another question:

— New boat?

— Well, after replacing the rotten wood for a while, the ballast rotted. Then there was no way out.

When a thousand questions came to mind, I remembered writing an introduction: the truth lies in the movement, not the observer.

A questão do verdadeiro barco se esvai quando ambos estão à frente, mas o forcei a responder mais uma vez:

— Por que igual ao velho?

Voltando-me o rosto, com olhar redundante, ele disse:

— Porque o barco lembra o meu pai.

Sem deixar de pensar na mensagem, meus olhos se dispersam à maresia ao final de tarde envolvendo a luz solar num peculiar prisma disperso colorido ao som do mar cantando junto com a copa das amendoeiras. Um sonoro coral de andorinhas recordou-me do dia de hoje.

O mensageiro deu-me a solução de espírito calmo e olhos encantados:

— Uma garrafa lançada ao mar com uma carta dentro, aposto em sua travessia mais rápida do que meu barco.

Voltei meus olhos para ele e uníssono dissemos:

— Para que o chamado espiritual se realize, soprei os signos ao ar: Latitude: 20º 40′ 00″ S, Longitude: 40º 29′ 51″ W, rogo ao mensageiro seus préstimos para meu amor encontrar o caminho.

The question of the actual boat fades when they’re both in front, but I forced him to answer one more time:

— Why is it the same as the old one?

Turning his face to me, with a redundant look, he said:

 Because the boat reminds me of my father.

Without stopping to think about the message, my eyes scattered to the sea in the late afternoon, enveloping the sunlight in a peculiar prism dispersed in color to the sound of the sea singing along with the tops of the almond trees, a sonorous chorus of swallows reminded me of today.

With a calm spirit and enchanted eyes, the messenger gave me the solution:

— A bottle thrown into the sea with a letter inside, I bet it would cross faster than my boat.

I turned my eyes to him and, for no apparent reason, we said in unison:

 For the spiritual call to come true, I blow the signs into the air: La: 20º 40′ 00“ S, Lo: 40º 29′ 51” W, I beg the messenger for his services so that my love can find the way.

(Excertos do diário):

“Hoje aula de leitura: A professora leu uma história, e todos tinham de recontar. Na minha hora do quadro, recontei:

— Ainda não chegou a minha vez!

— A professora usa a máscara da madrasta malvada, porque nunca me deixa sentar ao lado de Maria. Júlio e Andréia são as irmãs ladronas, porque roubam minha chance de brincar com ela no recreio. Mas agora que ela entrou pra Kombi da escola, talvez a minha chance chegue na carruagem-abóbora do motorista atrapalhado.

Nunca senti tanta vergonha das gargalhadas que eu causei na turma, então eu disse:

— E vocês são a pessoas ruins do baile!

A professora me mandou sentar.  

Minha raiva contra a turma e a professora teve consequências. Olhando para mim, o professor disciplinar fez um longo discurso sobre retirar maçãs podres do cesto, ainda hoje penso a quem ele se referia?!”

                                          ***

(Excerpts from the diary):

“Today’s reading lesson: The teacher told a story, and everyone had to retell it. So, when it was my turn at the board, I said it:

 It’s not my turn yet!

— The teacher wears the mask of the evil stepmother because she never lets me sit next to Maria. Júlio and Andréia are the thieving sisters because they steal my chance to play with her in the playground. But now that she’s in the school van, my chance may come in the clumsy driver’s pumpkin carriage.

I’ve never felt so ashamed of the laughter I’ve caused in class, so I said:

 And you’re the bad person at the dance!

The teacher told me to sit down. 

My anger at the class and the teacher had consequences. Looking at me, the disciplinary teacher made a long speech about taking rotten apples out of the basket, and to this day, I wonder who he was referring to!”

                                    ***

Semana passada, reli toda a adaptação dos diários e encontrei algo que não havia enxergado na escrita. No sétimo dia, troquei o portão de entrada por uma porta de grade comum para melhorar o acesso dos clientes no hostel, sabendo em meu coração não ser essa a verdadeira razão.

Hoje, lancei minha mensagem como quem lança uma rede ao mar e com ele se fundiu. Dentro da garrafa, sinais para que ela se lembre de mim: um mapa, um pedaço de cambraia, um ramo de érica roxa, e os temperos de nossa vida juntos.

(Excertos do diário):

“— Chegou a minha vez! A chuva era minha amiga e atrapalhou a fila da Kombi. Ela sentou ao meu lado. Nossos olhos se encontraram ao tempo em que a Kombi parou de soco, involuntário foi o movimento: nossas testas se chocaram. Um breve selinho surgiu. Ela desceu e antes do seu colar escorregar para o vão do assento, eu o resgatei. As pedras incrustadas nele eram como pequenas e delicadas flores de érica roxa”.

                                 ***

Last week, I reread the entire adaptation of the diaries and found something I hadn’t seen in the writing. On the seventh day, I replaced the entrance gate with a typical grille door to improve customers’ access to the hostel, knowing in my heart that this wasn’t the real reason.

Today, I launched my message like someone who throws a net into the sea and merges with it. Inside the bottle were signs for her to remember me: a map, a piece of cambric, a sprig of purple yarrow, and the spices of our life together.

(Excerpts from the diary):

“— My turn has come! The rain was my friend and got in the way of the Kombi queue. She sat next to me. Our eyes met as the Kombi stopped, the movement involuntary: our foreheads collided. A brief kiss ensued. She got down, and before her necklace slipped into the gap in the seat, I retrieved it. The stones encrusted in it were like tiny, delicate purple erica flowers.” 

                                      ***

Ao final da tarde, Babandjin desenredou-se de meu pescoço de onde escrevíamos e pulou miando-me a segui-lo, tal como se com fome estivesse. Conduziu-me até o portão, passou por entre as grades, atravessou a rua até a encosta da mata, onde Érika o aguardava trazendo consigo a coleira ornada que há muito lhe dei.  

Ao vê-los sumir na mata, realizou-se a saudade. No minuto seguinte, ela apareceu em meu portão vestindo a leveza do linho, com a imagem do poente por trás refletindo halo sobre si. Eu abri um caloroso abraço.

À noite, à quase esquina Paris, 737, jantamos os peculiares sabores da Taberna Mileto, outrora um local de encontro com um velho amigo libanês, onde reconta-se a história de como tudo começou. E os temperos lançados na garrafa?! Eu tive a oportunidade de cozinhar para ela nos anos que vieram, em tempos em que a separação não nos encontrou.

Towards the end of the afternoon, Babandjin disentangled himself from my neck where we were writing and jumped up, meowing at me to follow him as if he were hungry. He led me to the gate, and even before the bell rang, he passed through the bars and crossed the road to the edge of the woods, where Érika was waiting for him, carrying the ornate collar I had given her a long time ago. 

Watching them disappear into the woods, my longing was fulfilled. The next minute, she appeared at my gate wearing the lightness of linen, with the image of the setting sun behind her reflecting a halo over her. I gave her a warm hug.

In the evening, at 737 Paris, we dined on the peculiar flavors of Taberna Mileto, once a meeting place with an old Lebanese friend, where the story of how it all began is retold. And the spices in the bottle! I had the opportunity to cook for her in the following years, when separation didn’t find us. 

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